Blog do historiador André Azevedo da Fonseca, doutor em História (Unesp). O Blog reúne os artigos que procuram evidenciar o "lado B" da História de Uberaba. Além da discussão política e historiográfica, os escritos trazem à tona sobretudo os personagens marginalizados e os temas banidos da memória oficial de Uberaba.
Tuesday, December 30, 2014
Para compreender as propagandas ideológicas
Propagandas ideológicas sempre empregam figuras de monstros, animais peçonhentos e criaturas diabólicas para atribuir um sentido nefasto ao adversário. Inscreva-se http://bit.ly/canaldoAndre
Este vídeo analisa uma série de imagens utilizadas na fabulação de teorias da conspiração no século XX.
Confira a série "Mitos e mitologias políticas": http://bit.ly/1y207hP
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Referência bibliográfica
GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Cia das Letras, 1987.
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Nas mais diversas peças de propaganda ideológica da história do século XX, a gente pode observar que o padrão das narrativas das teorias da conspiração, em geral, reproduzem, essencialmente, as imagens míticas da descida progressiva para o abismo, para o subterrâneo e para as trevas.
Capitalistas contra comunistas. Antissemitas contra judeus. Liberais contra socialistas. Nazistas contra comunistas e vice versa.
Todas as doutrinas ideológicas se empenharam para utilizar esses tipos de imagens para carregar o inimigo com um espectro sombrio, maléfico e diabólico.
É quase sempre à noite que os conspiradores combinam de se encontrar para tramar os seus planos secretos.
Esses inimigos usam vestimentas escuras e sombrias. Os homens de preto são a representação clássica da organização secreta que atua no controle do planeta.
E a noção de que eles atuam no subterrâneo e todas as suas variações – a caverna, a cripta, o porão, o andar secreto no subsolo – tudos esses símbolos têm um papel essencial na construção do discurso da conspiração.
Escritores de livros de aventuras sabem disso e utilizam essas imagens com muita desenvoltura. Eles percebem que as pessoas se impressionam muito com essas descrições.
Escritores envolventes sabem manipular a angústia dos leitores com tanta segurança, que muitos passam a desconfiar, acreditar e mesmo jurar que aquela história é verdadeira.
A partir de imagens arquetípicas, que nos causam temor desde sempre, como a escuridão, a sombra, o nevoeiro, a tempestade que se anuncia, escritores introduzem os leitores em um mundo incompreensível e, exatamente por isso: amedrontador.
Surgidos sempre de lugares longínquos, misteriosos, os homens de preto têm a função de encarnar a ameaça do não-familiar, do Outro, do Estrangeiro no sentido mitológico do termo.
A ameaça que essas figuras inspiram é aquela que jamais deixou de assombrar os pesadelos das cidades pacíficas e ordeiras: a do vagabundo , que com a sua simples presença rondando os bairros já ameaça os lares felizes.
Ou do forasteiro misterioso que traz a doença e a epidemia, e que faz a colheita apodrecer e o gado morrer. Ou a do intruso que invade as casas das famílias e provoca perturbação e a ruína.
“A insegurança e o medo começam com a passagem dos desconhecidos que vagueiam na noite”
E é na sombra também que se escondem os animais imundos. É da sombra que eles surgem.
Não é à toa que as imagens cuidadosamente escolhidas para representar os inimigos de modo repulsivo procuram sempre associar o outro a um bestiário mítico que causa arrepios no inconsciente.
Esse bestiário reúne todo animal que rasteja, se infiltra e se esconde, que é ondulante e viscoso, que é portador da sujeira e a infecção. A serpente, o rato, a sanguessuga, o polvo... e entre os animais repulsivos, a imagem da aranha é uma das mais poderosas. E não é por acaso. A aranha é o animal peçonhento que tece a sua armadilha com uma paciência meticulosa, envolve as suas vítimas, entrelaçando a presa no emaranhado de suas teias, até devorá-la lentamente.
Pela sua capacidade de se multiplicar silenciosamente e espalhar a doença de forma invisível, a imagem da praga foi amplamente utilizada nas propagandas ideológicas para atribuir um sentido repulsivo e instigar o ódio e o desejo de extermínio do inimigo.
O porco que se alimenta do lixo, da podridão e da sujeira, e também o lobo assassino, de olhos de fogo e sedento de sangue, são outros animais que costumam fornecer imagens poderosas nas disputas simbólicas da propaganda ideológica.
Mas em uma perspectiva mitológica, as propagandas criadas para associar uma imagem torpe ao adversário político podem evoluir muito rapidamente desse bestiário sombrio e repulsivo para uma representação literalmente maléfica e diabólica do outro.
Friday, December 12, 2014
Para entender a criação do mito de conspiração
“Os protocolos dos sábios de Sião” foi um documento forjado
que estimulou a teoria da conspiração mais popular da História: o mito da
dominação judaica. Essa falsificação foi utilizada por Hitler e pelo nazismo
para justificar o extermínio dos judeus na Segunda Guerra Mundial.
Palavras-chave: antissemitismo, nazista, Israel
Estamos em Praga, por volta da metade do século XIX, entre
as sepulturas amontoadas do velho cemitério judeu. A meia-noite logo vai soar,
o silêncio se torna mais pesado sobre a cidade, a escuridão se faz mais
espessa. As portas do cemitério foram entreabertas; sombras deslizam furtivamente,
envoltas em longos mantos, depois se reagrupam em torno de uma pedra tumular.
Trata-se dos representantes das doze tribos de Israel que, segundo uma tradição
secreta, devem todos os séculos, entrar em acordo sobre os procedimentos que
devem tomar para garantir o sucesso do plano milenar de dominação do mundo.
E então, segundo essa história, um desses sábios afirma mais ou menos assim: já que o povo de Israel
foi pisoteado, humilhado, perseguido e teve que se dispersar pelo cinco
continentes, eles deveriam dominar todo o planeta. A Terra inteira pertenceria aos
judeus.
Nesse vídeo a gente vai ver como essa narrativa fictícia se
desenvolveu no imaginário ocidental até se transformar no mito da grande
conspiração judaica, que acabou legitimando violências da magnitude do holocausto.
Segundo Raoul Girardet, o mito da conspiração judaica tem
origem em um capítulo de um livro de ficção medíocre, publicado em Berlim em 1868,
com o título de Biarritz. O livro era assinado sob o pseudônimo de Sir John Retcliffe.
E o escritor, na verdade, era um
funcionário demitido do serviço dos Correios da Prússia, chamado Hermann
Goedsche. Antissemita, é claro.
Depois de ter sido publicado pela Europa oriental, esse
trecho em particular, isolado do seu contexto da obra de ficção, acabou
chegando ao público francês pela imprensa.
Só que os jornais afirmavam que a história era verdadeira e baseada em um testemunho autêntico de um diplomata britânico
chamado Sir John Readclif – assim mesmo, com a grafia ligeiramente diferente do
pseudônimo do romancista.
E além disso, em vez de vários personagens que no romance
original se alternavam no discurso, nessa
nova versão a conspiração judaica era revelada por um único rabino.
Não demorou para que a versão do jornal começasse a ser
amplamente citada. Em 1896 um livro de François Bournaud, chamado “Os judeus,
nossos contemporâneos”, reproduziu essa ideia do “discurso do rabino” e alcançou
repercussão internacional.
E já em 1933, a introdução da edição sueca desse livro garantiu
que o diplomata que havia revelado a conspiração judaica havia sido misteriosamente assassinado.
Não se esqueça: o diplomata nunca existiu. Era o pseudônimo
do funcionário dos correios, que era o verdadeiro autor do livro de ficção.
O fato é que essa história de um plano metódico, rigorosamente
articulado para a dominação do mundo pelos judeus correu o planeta.
Dezoito séculos pertenceram a nossos inimigos, proclama o
rabino na noite do cemitério de Praga; o século atual e os séculos futuros
devem pertencer a nós, povo de Israel, e certamente nos pertencerão.”
Segundo esse plano, os judeus, pouco a pouco, dominariam a
economia, a política e se enraizariam em todas as esferas da sociedade. Para
isso usariam da especulação financeira e da influência nos governos, ao
controle das escolas e dos meios de comunicação do mundo inteiro.
O complô judeu, assim como o complô jesuítico e complô
maçônico, foram mitos políticos muito presentes no imaginário do século XIX e
do século XX.
Aquele “discurso do rabino”, em particular, foi a
matéria-prima de um documento primordial da história ideológica contemporânea: Os
protocolos dos sábios de Sião.
Os protocolos foram uma falsificação do final do século XIX,
produzido pela polícia russa, antes da revolução comunista, ainda no período
czarista, e que circulou em vários países antes da Primeira Guerra Mundial.
Para se ter ideia do impacto histórico desse mito, esse texto forjado era
citado recorrentemente por Hitler para
justificar o extermínio dos judeus.
Desde o século XIX, os folhetins e esses romances populares,
direcionados a um público apaixonado por sensacionalismo, forneceram um
repertório fabuloso de temas e imagens que instigaram a imaginação política das
pessoas.
Mas apesar da criatividade e da diversidade de histórias, ao
analisar essas narrativas, não é difícil perceber um mesmo conjunto mitológico
na sua estrutura.
Todos os mitos da conspiração, por exemplo, começam com a
imagem daquela entidade secreta que deve ser vista com temor e de desconfiança:
a “Organização”.
A fabulação em torno desses mitos políticos segue um roteiro
que já é clássico. A organização é descrita como uma entidade repleta de segredos,
indevassável e por isso é difícil entender o que “eles” estão maquinando e é
quase impossível denunciá-los.
Investigá-los já é perigoso.
Para ingressar na organização é preciso passar por cerimônias
e rituais em lugares secretos, clandestinos. Os membros se se comunicam por senhas,
códigos e por sinais que só eles entendem. E os cúmplices estão ligados por juramentos
e pactos de silêncio.
Para cumprir seus objetivos, todos os meios são legítimos.
Da delação à traição, da espionagem ao assassinato misterioso – envenenamento, desaparecimentos,
acidentes...
Na fabulação dessas mitologias, o objetivo final de todas as
artimanhas da conspiração não é nada menos do que a instauração do império das
trevas em todo o planeta. A gente costuma se achar muito racional, mas nossos
juízos políticos estão carregados de mitologias e de religiosidade.
Mas a gente vai ver isso no próximo vídeo.
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