BlogBlogs.Com.Br Combates pela história de Uberaba

Friday, March 13, 2009

Cotidianos culturais no Google

O programa de Livros do Google acaba de publicar "Cotidianos culturais e outras histórias: a cidade sob novos olhares". O livro está à disposição na íntegra e já está disponível para consulta. O endereço é: http://www.google.com.br/books?id=zXG-cBqKxW8C

Friday, February 16, 2007

Participação política

André Azevedo da Fonseca

Agora que o espetáculo publicitário das campanhas eleitorais de 2006 ficou para a história, chegou o momento de exercer a cidadania e contribuir no desenvolvimento de nossa sociedade. Ao contrário do que gostam de afirmar os políticos profissionais, a prática da democracia não se restringe ao dia das eleições. Apertar a tecla verde na urna eletrônica não é o principal momento da vida democrática. Resumir a cidadania política ao ato individual do voto é mutilar o cidadão, pois a discussão pública sobre os projetos para transformar a sociedade é um exercício cotidiano que contempla diversas formas de participação. Portanto, se durante a campanha falou-se tanto em “voto consciente”, agora é a hora de incentivar o exercício diário da “participação política consciente”.

O presidente e os governadores já estão em pleno mandato. No dia 1º de fevereiro os deputados foram solenemente empossados. Enquanto cidadãos, devemos anotar o quanto antes o telefone, o endereço e o e-mail de nossos representantes para lembrar-lhes diariamente que eles não são nada mais do que nossos funcionários no governo e no parlamento. Ou seja, o mandato que confiamos provisoriamente a eles não significa um cheque em branco; eles não têm procuração para fazer o que quiser, até porque o cargo não pertence a eles: o mandato é nosso. O poder que eles representam não é uma dádiva pessoal, mas está sustentado unicamente em nossa vontade. Assim, ao contrário do que gostam de propagandear em suas campanhas, nada do que conquistarem para a cidade ou região será um favor, ou uma benesse pessoal, pois o mérito de cada conquista é da massa de eleitores ou, no mínimo, dos grupos de cidadãos que souberam articular suas demandas.

Se os políticos profissionais forem omissos, mentirosos ou trabalharem apenas pelos próprios interesses – ou pelos interesses de seus financiadores e círculos de relações – devemos enxovalhá-los em público até conseguirmos tirá-los de seus postos. Mas se forem responsáveis, competentes e criativos o suficiente para propor bons projetos de lei no sentido de promover o desenvolvimento, a autonomia e reduzir a desigualdade social, conquistarão nosso respeito e apoio. Em um país de tantas urgências, não podemos nos dar ao luxo de permanecer omissos. Em um país onde quadrilhas de parlamentares roubam dinheiro destinado a famílias pobres; onde a falta bons programas sociais produz milhões de jovens desesperados que acabam seduzidos pelo crime; e onde cujas leis favorecem uma concentração de renda que provoca o paradoxo de um país que possui umas das maiores economias do mundo mas conta com milhões de miseráveis; é muito grave assistir passivamente aos políticos profissionais desperdiçarem dinheiro público com proselitismos que servem apenas para sustentar o próprio prestígio pessoal. A negligência é a maior das violências.

Para avaliar a qualidade de nossos representantes é preciso acompanhá-los no decorrer do mandato. Quando estão nas ruas pedindo votos, os candidatos falam qualquer coisa para agradar. Mas agora que foram eleitos, eles terão que fazer escolhas. Essas escolhas podem favorecer os amigos pessoais e os lobbys organizados que já estão confortáveis em seus negócios, ou podem favorecer a distribuição da riqueza, a promoção da educação e a valorização do trabalho. O poder deve ser permanentemente constrangido. Sem pressão política nossos representantes se sentem muito à vontade e tornam-se apenas sujeitos vaidosos, festeiros e comilões. Com o fim da campanha eleitoral, chegou a hora da política. E cabe a nós exigir que os políticos façam seu trabalho. Diariamente.

Wednesday, September 20, 2006

Todos contra Mário Palmério



André Azevedo da Fonseca

Neste dia 24 de setembro completam-se 10 anos da morte de Mário Palmério, uma figura emblemática para se compreender a história contemporânea do Triângulo. Nascido em Monte Carmelo, Palmério foi pioneiro na criação de instituições de ensino superior na região quando fundou, em 1947, a Faculdade de Odontologia – o embrião da atual Uniube. Suas faculdades trariam milhares de estudantes a Uberaba, transformariam a economia da cidade e promoveriam intenso intercâmbio regional. Em 1950, para o assombro das elites políticas locais, foi eleito deputado federal e tornou-se o principal líder trabalhista da região. Em 1956 escreveu Vila dos Confins, romance importante da moderna literatura brasileira, e virou celebridade nacional. Nos anos 60 foi embaixador, publicou Chapadão do Bugre e tornou-se imortal da Academia. Depois de morar 9 anos na Amazônia, participou ativamente da história de Uberaba como reitor da Uniube.

Contraditoriamente, talvez por seu temperamento tido como autoritário, arrogante e brigão, Palmério foi também uma das figuras mais detestadas de Uberaba. E essa histórica repulsa a Mário Palmério parece ter se tornado uma particularidade cultural nessa cidade que Orlando Ferreira chamou de Terra Madrasta. Mas ao pesquisar o contexto da política local nos anos 50 foi possível perceber quatro elementos da gênese dessa relação de amor e ódio que se desenvolveu no imaginário da cidade. Vejamos.

1) O Liceu do Triângulo, de Mário Palmério, foi nos anos 40 uma das raras escolas particulares que não eram ligadas ao catolicismo. Além disso, a igreja católica, que dominava o ensino privado, defendia que o Estado não deveria criar escolas públicas, mas sim apoiar iniciativas de ensino particular. Como a bandeira de Palmério na campanha de 1950 era a criação da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, os católicos passaram a expressar antipatia à plataforma do petebista. Mais tarde essa antipatia seria transferida também às suas faculdades, que passaram a ser chamadas de “tecnicistas” em comparação às universidades ligadas à igreja, tidas como “humanistas”.

2) Na campanha de 1950, o diretório local do PTB, liderado por Antônio Próspero e Mário Palmério, passou a disputar com o PSP, do prefeito Boulanger Pucci, quem recepcionaria Getúlio Vargas em Uberaba. Palmério e os petebistas venceram a disputa e humilharam Pucci. Mas na manhã em que Getúlio desembarcou, Pucci sofreu um atentado à tiros e imediatamente o PSP acusou nos jornais que o mandante era Mário Palmério. Essa foi a primeira de muitas calúnias motivadas por interesses eleitorais.

3) Nas eleições de 1958 o Correio de Uberlândia publicou editoriais dizendo que Mário Palmério era inimigo público nº 1 daquela cidade, pois nas campanhas anteriores ele prometera levar faculdades para a região, mas as instalava apenas em Uberaba. No entanto, o jornal pertencia a udenistas – logo, as críticas eram mais partidárias do que políticas. Além disso, Uberlândia contava com dois representantes na Câmara: Rondon Pacheco (UDN) e Vasconcelos Costa (PSP).

4) Ainda hoje corre à boca pequena em Uberaba que Mário Palmério não seria o autor de Vila dos Confins e teria pago alguém para escrever o livro. Essa difamação é fruto daquela mesma ardileza política, pois era muito difícil para os feudos partidários locais engolirem o sucesso literário nacional de um triangulino imbatível nas urnas. Assim, para desmerecê-lo, inventou-se a maledicência que ganhou livre curso entre aqueles que por algum motivo não gostavam de Mário Palmério.

Consta-se que Mário Palmério, depois de tudo, morreu magoado com Uberaba. Mas sabe-se também que vez ou outra ironizava essa aversão com uma frase antológica: – Não sei por que ele está com raiva de mim. Nunca fiz nenhum bem a ele...

Como conhecer o caráter dos candidatos?

André Azevedo da Fonseca

Períodos eleitorais tornaram-se um dos momentos mais despolitizados da vida em sociedade. O espetáculo publicitário onde os aspirantes a cargos públicos anunciam seus slogans não promove a cidadania, não conscientiza, não educa e não estimula o envolvimento efetivo da comunidade na política. Ao contrário, essas propagandas tendem a confundir os cidadãos; pois não importa o candidato, todas reproduzem as mesmas idéias genéricas sobre os mesmos temas, todas defendem os mesmos compromissos gerais referente aos mesmos programas e, o que é pior, todas personalizam a política, como se as conquistas sociais fossem obras exclusivas da atuação de um só sujeito. Isso é a contramão da democracia moderna, que fundamenta-se na participação cada vez maior da coletividade nas decisões de Estado.

Assim, sejamos claros: não é possível escolher os representantes com base em suas próprias campanhas publicitárias. Candidatos não falam nas propagandas que suas gestões anteriores estão sob suspeita; não explicam suas ligações com escândalos como o mensalão ou a máfia dos sanguessugas; não tornam claros os casos de corrupção que ocorreram sob sua administração; escondem que são indiciados como réus em processos na Justiça Federal, nos tribunais superiores, na Justiça Eleitoral ou nos Tribunais de Contas... a lista é longa.

Algum coisa nesse sentido podemos descobrir conferindo sites como o da ONG Transparência Brasil (http://www.transparencia.org.br), que possui um importante banco de dados sobre dezenas de políticos profissionais, contendo informações tais como a identidade dos doadores de campanha; o desempenho legislativo (incluindo faltas, uso de verbas de gabinete, etc); as menções publicadas na mídia quando aparecem ligados a casos de corrupção, além de outras informações relevantes. Outra boa fonte de pesquisa é o próprio site da Câmara Federal, onde é possível conferir, no endereço http://www2.camara.gov.br/proposicoes quais foram os projetos de lei realmente apresentados pelos deputados, se eles trabalharam mesmo ou se apenas estão fazendo propaganda enganosa em suas campanhas.

No entanto, há uma outra medida que é mais difícil de ser mensurada, mas que pode ser reveladora: sempre vale a pena conversar com empregadas domésticas, jardineiros, motoristas, secretárias ou ex-assessores e ex-funcionários para descobrir o que os políticos profissionais realmente falam no seu dia-a-dia. O que se diz é que, em geral, eles jamais falam em projetos para transformar a sociedade. Nunca conversam sobre formas institucionais de promover justiça social. Não fazem referências sobre mobilização política das comunidades para exigir melhorias sociais. Os únicos assuntos ditos “políticos” giram em torno das táticas partidárias de conquista do poder, da melhor forma de caluniar o adversário, da maneira mais eficaz de forjar uma imagem favorável na imprensa, nas vantagens em se apoiar este ou aquele político profissional, e a conversa fica por aí. É o poder pelo poder. Mais ou menos como descreveu Mário Palmério em Vila dos Confins.

Mas quem são esses sujeitos que de dois em dois anos saem às ruas nos pedindo um cargo público? O que eles realmente querem? Que tipo de prazer eles sentem sendo políticos profissionais? E o que essas pessoas entendem por “política”? O que entendem por “democracia”? E enfim, como conhecer, de verdade, o caráter dessas pessoas que nos pedem votos? Seria muito interessante, mas muito interessante mesmo, travar um debate sobre isso.

Friday, August 18, 2006

Lições da democracia grega

André Azevedo da Fonseca



Para esquentar o espírito de cidadania nesse início de campanha eleitoral, ocasião em que políticos gastam todo seu tempo prometendo que serão representantes fiéis da vontade dos eleitores, é muito interessante fazer uma reflexão sobre a democracia clássica ateniense. Lembremos que foram os gregos que inventaram não apenas a democracia, mas também a política, entendida como “a arte de decidir através da discussão pública”.

Em Atenas os cidadãos viviam sob um regime de democracia “direta”, e não “representativa”, como nós. A Assembléia, um verdadeiro comício ao ar livre, era aberta a qualquer interessado. Em princípio, todos os presentes tinham o direito de tomar a palavra: a isegoria – o direito universal de falar na Assembléia – era algumas vezes empregado como sinônimo de democracia.

A Assembléia se reunia pelo menos quarenta vezes durante o ano e geralmente chegava a uma decisão sobre determinado tema em um único dia de debate. As deliberações eram estabelecidas pelo voto da maioria simples daqueles que estivessem presentes. Todos os assuntos a serem votados eram discutidos antecipadamente no dia-a-dia da sociedade. As pessoas conversavam nas lojas, nas tavernas, na praça, nas mesas de jantar e, mais tarde, esses mesmos cidadãos se direcionavam à Assembléia para realizar a votação formal.

Para se ter uma idéia desse espírito democrático, consta-se que nem mesmo o grande general Péricles detinha o poder de decidir sozinho questões relativas à mobilização de tropas na guerra. Todas as suas propostas eram submetidas à votação; visões alternativas eram apresentadas e a decisão final era dos membros da Assembléia, e não de Péricles. Para os atenienses “o reconhecimento da liderança não era acompanhado por uma renúncia ao poder decisório”.

Quase não havia burocracia ou funcionários públicos. A administração era partilhada entre um grande número de cargos anuais e um conselho de 500 cidadãos escolhidos por sorteio. Isso mesmo: através de sorteio eram escolhidos os membros, que não recebiam qualquer remuneração. Consta-se que no século V a.C. funcionários públicos, membros do conselho e jurados recebiam um pequeno per diem – valor menor do que o pagamento diário de um pedreiro. A participação na vida pública por sorteio indica que grande parte dos cidadãos necessariamente tinha alguma experiência direta no governo. Nem os apáticos escapavam da vida em comunidade. Ou seja, ao contrário do atual modelo de democracia, em Atenas a direção do Estado não era um monopólio dos chamados políticos profissionais: todos os cidadãos tinham direito de exercer a política.

A idéia da democracia direta mostra que nosso modelo político ainda pode ser radicalmente transformado através de reformas profundas. Há estudiosos insuspeitos, como o historiador Moses Finley, que defendem a viabilidade do modelo direto aos tempos atuais. Afinal, não devemos nos esquecer que, sob esse sistema, Atenas foi o Estado mais próspero, poderoso, estável e culto do mundo grego por mais de dois séculos. Lembremo-nos dos gregos.

Thursday, August 03, 2006

Os males do monstruoso foot-ball

André Azevedo da Fonseca



Nesta ressaca de Copa de Mundo, não podemos deixar de nos lembrar mais uma vez de Orlando Ferreira (1886-1957), conhecido como “Doca”, o mais atrevido jornalista uberabense do século 20. Para quem não sabe, em 1940 o desbocado comunista irrompeu sua notória fúria “contra tudo e contra todos” em direção a uma das maiores paixões nacionais: o esporte. Trata-se do livro Forja de Anões, um libelo contra o que considerava a maior anomalia da cultura brasileira: o gosto pelo jogo de bola.

Doca lamentava a visível “decadência física da mocidade”, sobretudo tendo em vista os avanços científicos do século. Ele argumentava que a classe médica poderia contribuir para a saúde dos rapazes, “se ela não estivesse envenenada pelo dinheiro” – pois os doutores estavam estimulando os esportes violentos para lucrar com o aumento de pacientes. Ele culpava também a imprensa pela ruína dos jovens, pois com os “relatos minuciosos e repetitivos de feitos esportivos” e os “elogios aos campeões” ela “estimula os jogos violentos, como o foot-ball e outros, cujos malefícios são relatados por ela mesma”. No entanto, o jornalista defendia que médicos e imprensa ainda poderiam tornar-se forças favoráveis ao progresso, caso combatessem as forças maléficas, como “os vícios, as doenças, os esportes violentos, sobretudo o monstruoso foot-ball”.

Para defender sua tese antiesportiva, Doca dizia que o homem não é um animal de atividade muscular, mas um ser cerebral, voltado para a consciência. Por isso, o esgotamento físico é um entrave para a inteligência, haja vista a estreita correspondência entre fadiga corporal e fadiga intelectual. “Um cérebro fatigado possui uma consciência morta, nula, estéril.” Segundo ele, somente o repouso favorece o pensamento. “A fadiga é uma grande inimiga do cérebro e assassina do pensamento”. Doca lembrava que as grandes criações da humanidade foram fruto de pensamento em ambiente tranqüilo, como os laboratórios. “Que seria da sociedade se esta fosse composta somente de corredores fatigados? Estaríamos engolfados no atraso, na miséria física e moral”.

Doca defendia que o homem é por natureza um “animal imóvel”, “frágil”, características que nos diferenciam da besta: “Que importância tem a nossa carreira ante a agilidade diabólica dos animais inferiores, da prodigiosa desenvoltura da serpente, do galope, do cavalo, do salto do leão, do vôo da águia? Proporcionalmente, que vale a força humana ante a força da pulga? No entanto o homem é o mais temível dos animais.” De que adiantam os músculos, questionava, se o homem é um animal sociável, preparado viver pacificamente; se possui inteligência, que vale mais que a força? “A musculatura e a inteligência tem ambas a sua finalidade: aquela, em maior escala, para os animais dotados de garras e dentes afiadíssimos poderem exercer a sua missão triste e bestial; esta, para o homem viver a vida fraternal e transformar o mundo.”

Apesar da fúria, Orlando Ferreira sabia que seria esquecido. “Escrevo, porém, sob a mais dolorosa das impressões: a do desânimo. Ninguém, tenho certeza absoluta, se importará com as minhas palavras, que talvez poderão ter méritos apenas: o de aumentar o número de meus rancorosos inimigos.” Mas ao nos lembrarmos de Forja de Anões em pleno século 21, fica aí a viva provocação de Doca aos novos entusiastas do futebol.

Monday, July 17, 2006

Dois parágrafos na História de Minas

André Azevedo da Fonseca



Foi lançado no XV Encontro Regional de História, que ocorreu de 10 a 15 de julho de 2006 em São João Del Rey, o livro História de Minas Gerais (Ed. Lê, 2005), de Helena Guimarães Campos e Ricardo de Moura Faria. Segundo os autores, a obra procura suprir a carência de estudos sobre “a totalidade histórica” de Minas. Eles criticam o fato de que a diversidade regional no Estado nunca é contemplada pelas produções históricas e, assim, a obra é anunciada como “indispensável a todos aqueles que desejam conhecer a realidade mineira”.

Pois bem. Consultando o livro, observamos que nas suas 255 páginas há apenas dois parágrafos dedicados ao Triângulo (p.91); ambos equivocados e pitorescos, pois os autores confundem-se em datas e persistem naquela lenda boba que atribui a transferência da região à Minas Gerais a um caso de amor envolvendo Dona Beija. E só. Os pesquisadores sequer consultaram os memorialistas Borges Sampaio ou Hidelbrando Pontes, referências básicas da história da região, que não constam da bibliografia da obra. Para se ter idéia, em todo o livro não existe nenhuma menção ao Desemboque – o berço de dezenas de cidades triangulinas.

A despeito dos vários movimentos de emancipação presentes na política regional, duas frases apenas mencionam o tema: “Apesar de alguns pareceres favoráveis da anexação do Triângulo à São Paulo, em 1816 a região tornou-se mineira” (p.91) e “as intenções manifestadas mais tarde de desagregar do território mineiro as regiões do Triângulo e o Nordeste (...) também não tiveram êxito.” (p.143-4). E pronto. O Triângulo aparece de relance quando se fala das populações mineiras (p.119) e quando é feita uma alusão a um caso pitoresco de um “carro blindado improvisado” na resistência aos paulistas na revolução de 30 (p.155). E só.

Em História de Minas Gerais, Uberaba é citada apenas em um trecho sobre um ovo de titanossauro que foi encontrado em 1946 (p. 14). Peirópolis não é mencionada. Mais à frente há um parágrafo sobre o Zebu em Uberaba (p.169). Uberlândia – a terceira maior cidade do Estado – é citada apenas uma vez em todo o livro, quando os autores dizem que “outras cidades” mineiras também cresceram em 1970 (p.179). Quando menciona a figura de Chico Xavier na religiosidade mineira, não o localiza em Uberaba (p.219). Não há uma menção sequer a Araguari, Sacramento, Frutal, Ituiutaba e demais cidades da região. O livro pincela uma série de escritores mineiros (p.223), mas “se esquece” de autores da estatura de Mário Palmério e Campos de Carvalho. Juntando tudo, a história do Triângulo Mineiro, não preenche meia página de texto de História de Minas Gerais. É como se não existíssemos. É como se não tivéssemos história.

O livro não traz novidades, pois é todo baseado em pesquisa bibliográfica em teses, dissertações e obras já publicadas sobre a história mineira. Contudo, a produção historiográfica sobre o Triângulo é volumosa: somente neste encontro em São João Del Rey estão sendo apresentadas mais de 40 pesquisas. Então, por que esse esquecimento?

Sabemos que, há anos, a resposta a esse enigma esteve na ponta da língua de muitos políticos e intelectuais emancipacionistas da região: – Ora, porque o Triângulo nunca foi mineiro! Porque o Triângulo não é Minas. Mas agora é curioso observar que quem confirma essa impressão são as próprias lacunas de História de Minas Gerais.

Wednesday, July 05, 2006

Combate ao simpático nepotista

André Azevedo da Fonseca

Nepotistas nem sempre são canalhas convictos. Quando observamos seus esforços para justificar a nomeação de parentes em cargos públicos, percebemos em alguns deles uma sincera opinião de que aquilo que fazem é perfeitamente legítimo. O nepotista tradicional, defensor dos bons costumes, jamais se considera um imoral; ao contrário dos cínicos, ele acredita, de todo o coração, que não há nada de errado em encaixar a esposa, o filho ou o cunhado no serviço municipal, designando seus auxiliares através dos critérios da intimidade pessoal. Assim, para examinarmos essa prática tão enraizada em nossa cultura, parece interessante iluminá-la com um termo sociológico de grande força explicativa: o conceito de “homem cordial”, desenvolvido por Sérgio Buarque de Holanda, em um livro que, não por acaso, chama-se Raízes do Brasil.

O termo “cordial”, tal como empregado, não se refere à idéia de polidez e de boa educação. Cordial está ligado etimologicamente à palavra cordis, que em latim significa coração. Ou seja, o homem cordial é aquele que pensa e age com o coração. Seja de forma afetuosa, seja de forma intempestiva, o cordial é incapaz de estabelecer, no espaço público, outras modalidades de relações que não aquelas baseadas nos delicados laços de intimidade que regem a vida privada.

Nas relações de trabalho, o homem cordial não consegue instituir um convívio profissional com os colegas ou com patrão. O cordial só é capaz de relacionar-se através de alianças emocionais. Dessa forma, em vez de ordenar-se em um ambiente fundamentado pelo coleguismo, o cordial procura ligar-se aos outros através de relações pessoais de intimidade – o que pressupõe sentimentos como amizade e benevolência, mas também inimizade e ódio. Assim, as relações profissionais, que deveriam pressupor metas e objetivos alcançados através de disciplina e civilidade nas relações, acabam se consumindo em todo tipo de fervores passionais. O ambiente de trabalho se esvazia da necessária impessoalidade e se enche de “amigos”, “inimigos”, “protegidos” e “desafetos”. Conseqüentemente, os critérios de avaliação profissional deixam de considerar a competência e o talento para valorizar unicamente os pactos de estima pessoal.

Ao projetar na vida pública essa lógica da convivência íntima familiar, o cordial confunde os espaços público e privado e passa a apropriar-se do público como se este fosse o seu território particular. E aí está um dos elementos responsáveis pelo atraso nas instituições brasileiras, e que explica também a moral familiar e anti-social do corrupto. Max Weber percebeu que, ao contrário do que diziam os positivistas, o Estado não é a continuação da família. Na verdade, o Estado moderno se funda exatamente com a superação dos valores da moral familiar através da conduta ética impessoal na sociedade. E é justamente por isso que a simpática tradição do nepotista é tão nefasta para a cidade e para o país. Enquanto as alianças familiares e os laços de amizade permanecerem garantindo cargos no serviço público, desencorajando com isso o talento, a competência e o esforço pela formação profissional, permaneceremos um país cordial, mas atrasado, injusto e corrupto.